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Oh Sweet Idleness

E sem mais delongas, ela permitiu-se. Deixou os sentimentos ocuparem o lugar correcto, deixou-os tomar forma, ganhar corpo, encaixarem no espaço que lhes era destinado. Há já algum tempo que os deixava deambular fugidios como o fumo áspero de um cigarro, incoerentes, incertos. Havia-se furtado a oferecer-lhes um recipiente onde permanecer por não saber o que fazer com eles, por não saber que destino lhes dar. Vagueavam-lhe no espírito como penas a flutuar ao som de uma brisa. Umas vezes ignorava-os apesar da sua presença latejante, do seu ecoar constante. Outras, deixava-se embrenhar e sucumbir. Caía, de braços estendidos, de olhos fechados, sem rede de segurança, sem conseguir prever se a queda a mataria ou a faria sentir-se ainda mais viva. Acontecia sempre que lhe abria a porta, sempre que se deixava preencher das carícias que o seu toque sabiam tão perfeitamente desenhar. Acontecia sempre que o deixava entrar no seu mundo para tão só o completar, sempre que conjugavam, juntos, o verbo amar. Acontecia sempre que, instigados pelo desejo, esse agente provocador, uniam os corpos insaciáveis e se entregavam ao prazer de se explorarem mutua e indiferenciadamente. Acontecia desde sempre, desde o início. Mas, desta vez, decidiu decidir-se. Decidiu conformar-se e assumir a vitória da paixão sobre a razão, decidiu resignar-se e entregar-se ao firmamento porque era lá que amiúde o avistava quando não o tinha junto a si.
 
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